A violência nos idosos é uma realidade social bem presente
em diversos contextos. Apesar de serem já conhecidos e catalogados diversos
tipos de maus-tratos, teorias explicativas de maus-tratos e negligência e
factores de risco, os episódios de violência são reais quer no contexto
familiar quer no contexto institucional. Na situação actual é necessária uma
identificação dos intervenientes e uma avaliação cuidada dos mesmos para que se
possa fazer uma intervenção eficaz na prevenção da violência contra os idosos
em situações de risco ou travar situações que são já actos continuados.
Segundo Dias (2004) “A Violência é cada vez mais um tema
presente em todos os segmentos sociais. Em Portugal só em 1999 é que foi criado
um Plano Nacional contra a Violência Doméstica que, para além de incidir sobre
as mulheres, passou a incluir, pela primeira vez, crianças e idosos. No nosso
país, ainda se está numa fase muito incipiente ao nível do conhecimento desses fenómenos,
embora já existam alguns estudos sobre a violência conjugal e os maus-tratos às
crianças. A violência contra os idosos, no entanto, permanece um domínio muito
desconhecido”(p.145).
As causas para o aumento da violência referem-se a todas as
faixas etárias, mas é em relação à velhice, etapa da vida em que as adaptações
e necessidades se tornam motivo de preocupação, que a sua incidência é cada vez
maior. As alterações no perfil etário da população com o aumento do número de
idosos, a maior participação feminina dessas pessoas no mercado de trabalho, a
instabilidade afectiva familiar e social desse segmento e a dependência
financeira dos mais jovens que vivem com o salário do idoso reformado são
alguns factores de violência que fazem contraponto com a dependência física e
financeira de idosos sem suporte social. Por outro lado, os seus efeitos exigem
que a população, despreparada para a convivência diária e diferenciada com
pessoas idosas e as suas múltiplas necessidades, seja instruída e educada para
conhecer e praticar recomendações que lhe são oferecidas a partir de legislação
que já existe e que precisa de ser cada vez mais difundida (Fortalenza, 2007).
Violência
Segundo Figueiredo (1999), “Violência é a forma de opressão
física, psíquica e social á qual um individuo pode ser submetido, seja por maus
tratos – acto que objectiva infringir sofrimento físico a um sujeito; seja por
abuso – acção ou omissão que coloca o indivíduo em posição de inferioridade,
privando-o de necessidades básicas, ou ainda por negligência – esquecimento ou
falha em providências que garantam a sua saúde em geral” (citado por Forlenza,
2007, p.45).
A violência não significa uma quebra de valores, mas uma
ausência colectiva destes.
A Organização Mundial de Saúde, em 2001, reconheceu a
necessidade de elaborar uma estratégia global para a prevenção dos maus-tratos
às pessoas idosas, na qual foram definidas três grandes áreas: negligência
(isolamento, abandono e exclusão social); violação (direitos humanos, legais e
médicos) e a privação (eleição, tomada de decisões, situação social, gestão
económica e de respeito) (Revista Espanhola Geriatria e Gerontologia, n.º37,
p.319-331).
O papel de
profissional de saúde
Princípios básicos da
geriatria e da gerontologia
É necessário que os profissionais de saúde sejam
capacitados na prevenção, identificação e tratamentos de maus-tratos e
negligência em idosos.
Os serviços de saúde,
mais particularmente os sectores de emergência e os ambulatórios, constituem
uma das principais portas de entrada das vítimas de maus-tratos e negligência.
O reconhecimento da
violência contra os idosos veio colocar definitivamente em causa o mito da
família moderna enquanto lugar privilegiado dos afectos. Por esta razão, o seu
reconhecimento como problema social foi ainda mais tardio do que as duas formas
de violência doméstica, apesar de, até então, se ter acreditado que existia uma
espécie de Golden Age para a terceira idade. O prolongamento da vida destas
pessoas, acompanhado muitas vezes por uma degeneração das suas faculdades
físicas e psíquicas, a sua exclusão precoce da vida activa, associada, entre
outros factores, a um sentimento negativo e de desvalorização dos indivíduos
que se encontram nesta categoria social, torna os idosos particularmente
vulneráveis a diversos tipos de violência.
Considera-se
fundamental estimular acções que promovam educação gerontológica para todas as
faixas etárias, em todos os níveis, na sociedade, na comunidade e nas famílias,
visando a combater a forma de violência mais descrita pelos próprios idosos,
que é o preconceito contra a velhice.
Ana Isabel Martins
Aluna do curso de
Gerontologia Social
Bibliografia
·
Dias, Isabel (2004). Violência na família. Uma Abordagem Sociológica. Porto:
Afrontamento.
·
Fortalenza, Orestes V. (2007). Psiquiatria Geriátrica do Diagnóstico
Precoce à Reabilitação. São Paulo: Atheneu.
·
Organização Mundial de Saúde (2002) – rede internacional para a prevenção do
maltrato ao idoso.
·
SCS, Figueiredo. (1999). O abuso na velhice a partir do olhar de
pessoas idosas. Dissertação de Mestrado, USP-FFCL, Departamento de
Psicologia e Educação. Ribeirão Preto.
·
Gil, Ana (2010). Heróis do Quotidiano. Dinâmicas
Familiares na Dependência. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.
·
Freitas, E., Py, L., Cançado, F., Doll,
J., Gorzoni, M., (2006). Tratado de
Geriatria e Gerontologia 2.ª Edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan
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